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….que a vida flua livre e ativa….


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Novidade! O “Filhas e Filhos” Agora é “Conexão Pais e Filhos”

Car@s Assinantes e Leitores do blog Filhas e Filhos,

Gostaria muito de agradecer o apoio que vocês vêm me dando nesses últimos meses. Toda semana, ao sentar para escrever eu lembro que assim que eu apertar “Publicar” vocês serão os primeiros a ler meus textos.

Bom, quero dizer que o blog deu tão certo que resolvi dar um próximo passo nessa jornada e criei uma organização chamada Conexão Pais e Filhos para apoiar pais, mães, avós, cuidadoras nessa importante tarefa de criar e ajudar as crianças a se desenvolverem.

Continuarei a escrever os textos semanalmente, porém agora eles serão publicados no blog “Conexão Pais e Filhos” . Quem cadastrou o email no Filhas e Filhos já está automaticamente cadastrado no Conexão. Quem se cadastrou no Filhas e Filhos utilizando sua conta no wordpress terá que se cadastrar novamente. Desculpem pelo inconveniente.

Também tive que criar uma nova página no Facebook e agradeço muito se vocês puderem fazer uma visita e aproveitar para curtir a página: https://www.facebook.com/conexaopaisefilhos

Quero pedir sua ajuda nessa fase de transição. Caso você perceba algo de errado no novo blog, por favor me avise. Caso queira sugerir pautas, fique a vontade. Meu email é marcelo@conexaopaisefilhos.com

Em breve o novo site terá mais conteúdos e vocês serão os primeiros a saber.

Grande Abraço,

Marcelo Michelsohn

 


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Conexão não tem obsolescência programada

Entre um carrinho novo ou sua atenção por 30 minutos ininterruptos, seu filho prefere sua atenção.

Entre uma boneca e uma boa brincadeira de pega-pega, sua filha prefere a brincadeira.

O brinquedo novo pode até gerar um sorriso e um grito de alegria. Pode até lhe render um abraço e um beijo. Mas isso tem curta duração. Lembra que você ficou super empolgado quando comprou o celular mais moderno e uma semana depois já o tratava como uma coisa normal? É a mesma coisa.

Sua presença abre as portas para um encontro verdadeiro com seus filhos.

Esse encontro, com risos, choros, pulos, gritos, cria conexão. Conexão que é renovada a cada dia, com mais presença. E que não se desfaz.

Conexão não tem obsolescência programada.

Tenho prazer de dizer que hoje, dia 12 de outubro, vai ser um dia como qualquer outro em nossa família.

Vamos brincar, comeremos juntos, vai ter risada, vai ter limites, talvez choros e com certeza muita conexão.

Aproveite o dia de hoje para ser o começo de uma nova era de conexão com você mesmo e com seus filhos.

 

(Em breve, o blog Filhas e Filhos vai mudar de nome e de cara. Vocês serão os primeiros a saber!)


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Brincar-escutando: como deixar os filhos liderarem

Filhos brincando tranquilos

Filhos brincando tranquilos

Toda noite, após o jantar, por volta das 19:30 eu brinco com meus dois filhos, Luna (4) e Leo (2). Eles decidem onde e como querem brincar. Ultimamente eles tem escolhido brincar em minha cama. Antes de começarmos eu aviso que estou colocando o despertador para tocar em 15 minutos. Fazemos diversas brincadeiras, em sua maioria brincadeiras físicas.

Hoje de noite, estávamos brincando e Luna pediu para eu ficar de quatro para ela montar em mim como se eu fosse um cavalo. Deixei ela montar, andei um pouco pela cama e depois virei o corpo para ela cair. Não foi um movimento brusco, porém ela me disse: “Pai, eu não gostei disso.” Me dei conta que não deixei que ela controlasse a brincadeira e introduzi um elemento que não estava alinhado com a necessidade dela naquele momento.

A partir desse momento, fiquei mais atento às necessidades deles e passei a perguntar mais o que eles queriam que o cavalo fizesse. Eles então criaram toda uma brincadeira na qual o cavalo levantava, passeava com eles em cima, parava para comer, para beber e em certo momento o cavalo foi até penteado.

Em outro momento, Luna disse que eu era um leão e que eu comia as crianças. Perguntei para o Leo se ele gostaria de brincar assim e ele disse que não. Se eu não estivesse atento, poderia ter entrado na brincadeira sem checar se era realmente algo que ele também queria. Mesmo Luna, que sugeriu a brincadeira, depois disse que não queria que o Leão a comesse. Acho que ela queria que o leão comesse apenas o Leo, mas não vou entrar em interpretações sobre a relação entre irmãos aqui.

Patty Wipfler chama essa técnica de “Brincar-escutando” (Playlistening). Uma das regras básicas é não deixar suas próprias questões se intrometerem na brincadeira. “Às vezes, devido a questões que nunca resolvemos quando éramos crianças vamos levar a brincadeira para uma direção que não foi definida pela criança (…) Não é fácil se deixar guiar pela criança durante a brincadeira.” (Listening to Children: Playlistening). Acho que a melhor coisa que aconteceu foi ela ter me mostrado o que queria e o que não queria e ao invés de eu ficar me punindo por ter errado, eu simplesmente lembrei de prestar atenção e segui adiante.

Não sei exatamente o que eu não resolvi quando criança, mas a idéia de derruba-la do cavalo foi minha e me colocou na posição de mais habilidoso. Ainda segundo Patty Wipfler  “(ao brincar-escutando) Você está oferecendo ao seu filho um alívio das dificuldades da infância, que incluem ser menores, mais fracos, menos respeitados, menos habilidosos e menos livres para determinar sua vida. O riso que resulta de brincadeiras em que seu filho se sente mais poderoso do que você, faz com que ele libere muitas tensões. E também aproxima vocês(…) Constrangimentos, medos leves e timidez são dissolvidas.” (Listening to Children: Playlistening).

Não dá pra saber sempre ao certo, quais as tensões que a criança está liberando durante a brincadeira. Sinto que ao tentar interpretar o que está acontecendo durante a brincadeira, eu perco a conexão. Então, agora, nem tento entender o conteúdo da brincadeira, contanto que eles estejam se divertindo e dando boas risadas.

Este artigo está disponível em inglês no blog do Hand in Hand parenting. 

This post is also available in english at the Hand in Hand Parenting blog here. I am a Parenting by Connection Instructor in Training at Hand in Hand Parenting. )


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Momento Especial e o Medo do Cabra Cabrês

cabra cabres(Para ler esse texto em inglês  acesse os textos do Filhas e Filhos no site do Hand in Hand Parenting)

Acabei de usar uma técnica do Hand in Hand Parenting, chamada Momento Especial (Special Time). A ideia é dar total atenção a uma criança e permitir que ela escolha o que quiser fazer dentro de um limite de tempo estabelecido por um adulto. Eu estabeleci o tempo de 15 minutos e disse para a Luna: “O papai vai correr agora e quando eu voltar vou tomar banho e comer meu café da manhã. Depois disso eu terei 15 minutos para fazer um Momento Especial com você. Você pode escolher o que quiser fazer aqui em casa e eu farei só com você.” Na hora do momento especial pedi para a Regiane ficar com o Leo, pois cada um deve ter seu momento especial sozinho, sem que o adulto divida a atenção com outra criança, com outro adulto ou com celular, computador, telefone. Leo chorou e disse que queria brincar também. Eu disse que faria um Momento Especial com ele depois que acabar o tempo da Luna.

Luna me convidou para jogar um jogo de cartas da maneira que ela inventou. Ela ganhou uma cartas com figuras e números e disse que deveríamos desenhar em volta das figuras. Ela pegou um lápis cinza e eu perguntei o que eu deveria fazer. Ela explicou que era para eu pegar um lápis como o dela. Peguei um lápis de cor e mostrei para ela. Luna disse: “Não, esse é mais grosso. Você tem que pegar um igual ao meu.” Nessa hora é muito importante checar com a criança se estamos fazendo exatamente o que ela quer. Ficamos desenhando nas cartas por alguns minutos. Ela se cansou e disse que queria balançar no sling e depois disse: “Não, eu quero ser bebê!” Isso é uma brincadeira que fazemos na qual ela entra no sling como se fosse um bebê. Ajudei Luna a entrar e perguntei o que ela queria que eu fizesse. Ela disse: “Primeiro você balança fraco, depois médio, depois forte e depois com rapidez!” Comecei balançando fraquinho e fui seguindo suas instruções: “Agora médio”,  “Agora forte”, “Agora rapidez”. Ela estava gostando muito de ir rápido e disse: “Parece que eu estou em uma cama voadora”. Fiquei balançando Luna por vários minutos. Depois ela pediu para parar. Então falou: “Vamos montar uma torre bem grande?”. Eu disse com entusiasmo: “Vamos!” Na hora do momento especial é importante que você se entregue e transmita todo amor e empolgação possíveis. Começamos a montar uma torre com aqueles blocos de madeira que já existiam na minha época. Deixei que ela dirigisse a brincadeira e fui montando junto, fazendo exatamente o que ela queria.

Em um determinado momento Luna disse: “Será que o Cabra Cabrês consegue entrar nesse castelo?” Há duas semanas fomos a uma sessão de contação de histórias e uma das histórias contadas era sobre um bicho grande e feio que invade a casa das pessoas quando elas não estão. Na história, a mãe sai de casa e pede para o filho ficar lá dentro, mas o filho decide ir brincar na floresta e quando volta o Cabra Cabrês tinha trancado ele para fora de casa. Toda vez que o menino ou um animal amigo do menino tentavam entrar, o Cabra Cabrês dizia com uma voz terrível: “Eu sou o Cabra Cabrês. Pra cima de ti, te parto em três!” Não vou entrar na discussão sobre se essa história é apropriada para uma criança de 4 anos, mas o fato é que ela ouviu e trouxe durante nosso momento especial. Segundo a Patty Wipfler, fundadora do Hand in Hand Parenting, as crianças utilizam o Momento Especial para trazer conteúdos que possam estar incomodando. Dito e feito. Pelos próximos minutos, Luna ficou falando sobre o Cabra Cabrês. “Acho que ele não consegue entrar aqui. Se ele quiser, podemos deixar ele só espiar. Se ele quiser  entrar, vamos falar que o castelo ainda não está pronto e ele vai embora.”

A minha atenção integral fez com que ela sentisse segurança para trazer um tema difícil para ela. Ela estava com medo e se esse medo fica dentro dela, atrapalha seu dia a dia. Na correria, mesmo quando estamos com nossos filhos, muitas vezes não estamos realmente. Nossa cabeça está em outro lugar e isso se traduz em pequenos gestos, olhares, movimentos que são captados e interpretados pelas crianças mais ou menos dessa forma: “não vou me abrir meu coração e falar de algo difícil para alguém que não está prestando atenção.” Basta imaginar aqueles momentos onde você está angustiado com alguma coisa e precisa conversar com alguém, mas justo a pessoa na qual você mais confia está com olhos grudados na televisão, mas diz: “Pode falar, eu estou ouvindo….” Impossível se abrir para alguém nessas condições.

Tudo o que precisei fazer foi dedicar 15 minutos integralmente para minha filha. Além de ajuda-la a expressar um medo, sei que aumentei a confiança dela em mim. Isso é um círculo virtuoso. Quanto mais ela confia em mim e se abre, mais sinto vontade de proporcionar esses momentos para ela.

É importante terminar dizendo que o fato dela ter falado sobre o medo, não significa que ela conseguiu extravasa-lo. Mas agora eu posso ficar atento e ajuda-la a colocar essas emoções para fora através de boas gargalhadas durante uma brincadeira onde posso fingir que sou o Cabra Cabrês e deixar que ela me derrube ou me expulse da casa. Não sei como será. Cenas do próximo capítulo.


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Choro na Hora do Chá: Ajudando uma Criança a Extravasar suas Emoções

DCF 1.0Mais uma vez entendi que a melhor forma de ajudar nossos filhos é através de uma conexão que permita com que eles extravasem suas emoções, seja através do riso ou do choro. Chorar não é ruim. Quando uma criança chora, precisamos mostrar para ela que estamos juntos nessa e que ela vai atravessar pela dor, tristeza, raiva e sair do outro lado sentindo-se melhor. Mostramos isso com nosso olhar, nossa presença e com poucas palavras, sem tentar conforta-la ou fazê-la parar de chorar.

Ontem foi um dia de trabalho difícil. Eu precisava entregar uma apresentação de manhã e a tarde teria uma reunião com os sócios. Até consegui acordar cedo, meditar, preparar alguns materiais e ainda preparar o café da manhã, mas depois disso foi tudo corrido. Almocei com a família, mas praticamente engoli o almoço e saí para a reunião com os sócios. Cheguei em casa 19:30, depois do jantar. Comi qualquer coisa rápido. Estava tenso. Nem falei com Leo direito. Por volta das 20:00 Leo pediu para mamar e dormir. Foi estranho pois ainda iríamos fazer a brincadeira e depois tomar chá. Regiane levou Leo para dormir e eu fiquei com a Luna. Fizemos nosso tempo de brincadeira. Eu estava cansado mas tentei dar toda a atenção que conseguia. Luna quis se balançar no trapézio e depois no sling. Quando ela estava no trapézio ela pediu para eu tentar pegar os pés dela. Eu ia para longe e quando ela se balançava eu tentava pegar os pés mas deixava escapar por um triz. Isso gerou algumas risadas nela. Depois Luna decidiu ir para o sling e pediu para eu balançar o sling de uma forma que ela conseguisse bater os pés no teto (o teto do mezanino é baixo). Ela deu muitas gargalhadas. Depois brincamos de cantar juntos e aí os 15 minutos terminaram. Descemos e eu fui fazer o chá. Enquanto esquentava a água, Luna pediu para eu contar a história do Aladin e a Lâmpada Mágica. Liguei o iPad da Regiane e comecei a contar. Lá pelo meio da história a bateria acabou e por sorte eu conseguia lembrar o resto da história. Eu mencionei o fato da bateria ter acabado para mostrar como as crianças são frustradas com pequenas e grandes coisas ao longo do dia e essas frustrações vão se acumulando dentro delas e precisam sair em algum momento.

Ao terminar a história, servi o chá: uma xícara para mim, uma para ela e uma para Regiane que ainda estava no quarto com o Leo. Luna pediu para ir lá no quarto e minha primeira reação foi dizer não, com medo que ela despertasse o Leo. Ela disse que iria em silêncio e então fomos juntos. Ela abriu a porta com delicadeza e avisou a mãe que o chá estava pronto. Regiane disse que já estava vindo. Sentamos para tomar o chá.

Eu: Vamos pensar no que mais gostamos do dia ou de alguma coisa pela qual queremos agradecer.

Luna: Cadê a mamãe?

Eu: Cadê a mamãe?

Luna: Está lá com o Leo. Mas ela vai perder o chá!

Eu: Ela bebe depois. Você conseguiu pensar em alguma coisa boa do dia?

Luna: Eu não vou falar nada.

(Sinal de alerta 1: Luna sempre participa falando uma ou duas coisas que gostou no dia)

Eu: Tá bom. Então eu vou falar.

Luna: Eu não vou nem brindar com você.

(Sinal de alerta 2: Luna adora brindar depois que alguém fala algo bom)

Eu: Tá bom.

Luna: Eu vou lá chamar a mamãe.

Depois de perceber os dois sinais, estava claro para mim que Luna precisava de limite para poder extravasar suas frustrações. 

Eu: Não, você vai ficar aqui com o papai.

Se ela estivesse bem, iria concordar tranquilamente em ficar comigo, porém Luna começa a chorar. Agora era a hora de ficar escutando seu choro com carinho e conexão.

Luna: Eu quero a mamãe. Eu quero dormir.

Eu (com calma): Agora nós vamos ficar aqui.

Luna: Eu vou chorar até a mamãe chegar. (e começa a chorar cada vez mais alto)

Eu: Você vai acordar o Leo e aí a mamãe não virá mesmo.

Putz, que erro! Me esqueci por um segundo que ela estava completamente inundada por emoções e precisava de conexão e não de explicação. Quando o sistema límbico inunda nosso cérebro com emoções, o neo-córtex (nossa parte mais racional) não consegue funcionar direito, portanto não adianta ficar explicando.

Luna continuou chorando e eu fiquei com ela. Ouvindo ela chorar e mantendo contato com os olhos.  Leo acordou lá no quarto e começou a chorar também pois queria sair do quarto. Regiane estava colocando o limite lá e não deixou ele sair.

Luna foi se acalmando. Quando ela parou de chorar eu fiz meu agradecimento. Agradeci à dinda da Luna por ter ficado com ela a tarde enquanto Regiane resolvia outras coisas com o Leo.

Falei que era hora de escovar os dentes e fazer xixi. Ela foi tranquilamente. Ou seja, depois de um choro que durou 3 minutos, ela tinha descarregado suas emoções e voltado a funcionar bem. Depois entrei com ela no quarto. Leo estava acordado no colo da Rê. Pedi para a Luna subir para cama e ela fez com tranquilidade. Fechei a porta e depois de 10 minutos Regiane saiu de lá e deixou os dois adormecendo.


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Video: Como Fazer Seus Filhos Extravasarem Através do Riso

Hoje resolvi postar algo diferente. Ao invés de um texto, resolvi arriscar e postar um video que mostra um pai (no caso, eu), brincando com seus filhos. O video tem apenas 1 minuto e meio, mas achei que seria interessante para ilustrar como brincar de um jeito a gerar o máximo de risadas possível. Após assistir ao video, veja abaixo algumas considerações sobre essa forma de brincar.

Por que brincar dessa maneira:

“Crianças adoram rir. Quanto mais puderem rir, mais cheias de vida elas ficam. (…) As crianças se sentem seguras e compreendidas quando os adultos relaxam, se aproximam e deixam que a brincadeira e as risadas comecem. Criar o espaço para nossas crianças rirem é ótimo para nós também. Ouvir suas gargalhadas é um dos maiores prazeres de ser pai e mãe.

O poder de cura da Brincadeira com Escuta está nas risadas que a criança dá. Vergonha, pequenos medos e timidez se dissolvem. Essa brincadeira preenche a criança com esperança. Cria um enorme senso de proximidade e compreensão entre a criança e o adulto que brinca com ela. Tensões gerais e específicas da criança são elaboradas e descarregadas através da risada.” (Patty Wipfler – Listening to Children: Playlistening)

Os princípios por trás dessa “brincadeira com escuta” são:

1- Quem define a brincadeira são as crianças. Elas estão no comando! Reparem que no video, as crianças vão dizendo o que querem fazer: “Agora o Leo vai primeiro!”

2- O adulto segue os comandos das crianças, estando presente a todo o momento: Senti que o que eles queriam era ter essa sensação de me prender embaixo deles e aí resolvi fingir que eu queria sair.

3- O adulto busca formas de fazer a criança rir, sem mudar o conteúdo principal da brincadeira. Quando percebi que a minha tentativa de sair fez eles rirem, comecei a fazer mais.

4- Se houver algum tipo de competição, deixe a criança vencer. Nesse caso, a competição era não deixar eu sair debaixo deles.

 

 


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Há Tempos que Eu não Via um Pai bater em um Filho!

quadro crianca(Esse texto, de 3 minutos, descreve uma cena de agressão que presenciei em um parque público e questiona esse tipo de prática a partir de estudos recentes)

Há muito tempo eu não via uma cena de uma criança apanhando covardemente de um pai. Estávamos em pleno parque da cidade natal da minha esposa. Levamos todos os apetrechos para brincar com areia e água: balde, pá, colheres, xícaras, bule, coador, potes, etc. Eu estava sentado na areia perto dos meus filhos e da minha sobrinha, quando um menino de mais ou menos 4 anos se aproximou e começou a brincar junto. Estava tudo tranquilo. O menino brincava em harmonia. Em um momento, porém, minha sobrinha que tem três anos e meio, pegou uma pá que estava na mão do menino. Ao ver o movimento dela, que não foi brusco, eu falei: “a gente não puxa as coisas da mão do outro”. Ela olhou pra mim e disse: “mas eu quero essa pá.” e eu repeti com tranquilidade “A gente não puxa as coisas da mão do outro.” Ela soltou e foi brincar com outra coisa. Vindo não sei de onde, um adulto chegou por trás do menino, arrancou a pá da mão dele, agarrando-o e levantando-o por trás dizendo: “tá na hora de ir embora”. Não tive reação. O homem atravessou a área de brinquedos do parque, suspendeu o menino por cima das grades e passou junto para o lado de fora. Colocou o menino no chão e quando o menino começou a andar, lhe deu um tapa com raiva e violência na bunda. Fiquei assustado e paralisado. Regiane estava mais próxima da cena. Olhou pra mim espantada e, indignada, foi em direção ao homem, falando: “Ele pode continuar brincando. Ele não fez nada. Está tudo bem.” O homem parou e disse: “Ele desobedeceu.”. Regiane continuo explicando que ele estava brincando tranquilo e que não fez nada de errado e o homem repetia que ele desobedeceu e que eles tinham que ir embora mesmo. Menino e adulto se afastaram. Regiane voltou com os olhos cheios de lágrimas, mas não tivemos tempo de processar o acontecido pois nossos filhos e nossa sobrinha continuavam a brincar felizes pelo parque. Após alguns minutos, vimos o menino, o adulto e uma mulher passeando pelo parque, sem a menor pressa de ir embora, como o homem havia sugerido.

Tente se colocar no lugar desse menino. Imagine que você está tranquilo, lendo um livro em um belo lugar ao ar livre. De repente, alguém muito maior que você, chega por trás e sem você ter tempo de reagir, tira o livro da sua mão e o joga no chão, arrasta você pelas costas por uns dez metros e depois te dá um tapa. É impossível ou pelo menos muito difícil imaginar essa cena acontecendo entre dois adultos. Parece algo surreal e imediatamente pensamos que a pessoa que fez esse ataque deve ser louca. Posso imaginar a pessoa que sofreu o ataque tentando se desvencilhar e revidando o tapa, gritando, chamando a polícia. Mas, quando acontece entre um adulto e uma criança a maioria das pessoas não só acha normal, mas rapidamente diz que é direito dos pais fazer o que quiserem para “educar” os filhos.

Alfie Kohn, em seu livro “Unconditional Parenting” apresenta estudos mostrando que a punição é algo extremamente ineficaz. Algumas pesquisas mostram que crianças que são punidas vão para um dos extremos: super-obedientes ou super-desobediente. Muitas começam a apresentar comportamentos muito distintos dependendo do ambiente. Podem ser extremamente comportadas na presença dos pais ou de figuras de autoridade, mas quando estão apenas com outras crianças aproveitam para extravasar essa raiva contida através de comportamentos agressivos. Kohn escreve “A única coisa que ensinamos ao bater é que é possível que as coisas sejam feitas do seu jeito se você achar alguém mais fraco e submeter essa pessoa.” Apesar da punição física ser a mais fácil de ser observada e até de ser questionada, qualquer tipo de punição tem consequências ruins para a criança e para sua relação com os adultos mais importantes para ela, seus pais. “Mau comportamento e punição não são opostos que se cancelam, mas sim pólos que se reforçam.” escreve Alfie Kohn.

O menino do parque não estava demonstrando nenhum comportamento que habitualmente os adultos tendem a considerar errado e que exige punição. Ele não bateu, não empurrou, não puxou um brinquedo. Será que aquele adulto, de longe, interpretou que Lucas tentou pegar a pá da minha sobrinha e não vice-versa? Acho que não. Provavelmente, esse adulto, que por sinal estava muito longe da cena, não quer nem saber o que está acontecendo. Ele já assume que a criança está fazendo algo errado e não perde a oportunidade para puni-lo.

Provavelmente ser agredido sem apresentar comportamentos entendidos como “errados” pelos adultos deve ter uma consequência terrível para a criança. Ela deve se sentir o tempo inteiro com medo, sem saber quando e porque será agredida. Mas é bom ficar claro, que a punição, em qualquer circunstância e sob qualquer forma traz consequências ruins para a criança. A punição, seja batendo, seja colocando de castigo, seja através da fala ou mesmo de um olhar ensina para a criança que nosso amor por ela é condicionado. Ou seja, só a amamos quando ela se comporta da forma que nós achamos certo. Estudos mostram que amor condicionado leva ao desenvolvimento de adultos que se sentem mais rejeitados e que tem piores relações com os pais. A Universidade de Denver fez um estudo com adolescentes e concluiu que aqueles que sentiam que tinha que agir de determinada maneira para serem amadas, tendem a ser mais deprimidas e a levar uma vida na qual não sabe quem ela realmente é.

Uma sociedade que  incentiva punição, castigo ou qualquer tipo de abuso só poderia ter as características que observamos hoje: índices crescentes de depressão, ansiedade, suicídios, baixo senso de comunidade. Imagine como seria uma sociedade que respeitasse as crianças? E a pergunta que ficou para mim é: o que eu poderia ter feito de diferente? Como lidar com esse tipo de situação?